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VERSO 63

yathā puruṣa ātmānam
ekam ādarśa-cakṣuṣoḥ
dvidhābhūtam avekṣeta
tathaivāntaram āvayoḥ

yathā como; puruṣaḥ a entidade viva; ātmānam — seu corpo; ekam um só; ādarśa — em um espelho; cakṣuṣo— pelos olhos; dvidhā-ābhūtam — existindo como dois; aveketa vê; tathā — de modo semelhante; eva com certeza; antaram — diferença; āvayoḥ entre nós.

Assim como uma pessoa vê o reflexo de seu corpo em um espelho como sendo ela própria e não diferente dela, ao passo que outros realmente veem dois corpos, do mesmo modo, em nossa condição material, que afeta e, ao mesmo tempo, não afeta o ser vivo, há uma diferença entre Deus e a entidade viva.

SIGNIFICADO—Sendo afetados pelo condicionamento da matéria, os filósofos māyāvādīs não conseguem perceber a diferença entre o Senhor Supremo e a entidade viva. Ao refletir-se em um pote d’água, o Sol sabe que não há diferença entre ele mesmo e o Sol refletido na água. Os ignorantes, contudo, percebem que existem muitos pequenos sóis refletidos em cada pote. Quanto ao brilho, ele existe tanto no Sol original quanto nos reflexos, mas os reflexos são pequenos, ao passo que o Sol original é muito grande. Os filósofos vaiṣṇavas concluem que a entidade viva não passa de uma pequena amostra da Suprema Personalidade de Deus original. Qualitativamente, Deus e as entidades vivas são iguais, mas, quantitativamente, as entidades vivas são pequenos fragmentos da Suprema Personalidade de Deus. O Senhor Supremo é pleno, poderoso e opulento. No verso anterior, o Senhor diz: “Minha querida amiga, tu e Eu não somos diferentes.” Essa não-diferença se refere à unidade qualitativa, pois não era necessário que Paramātmā, a Personalidade Suprema, lembrasse a alma condicionada de que ela não é igual a Ele em quantidade. A alma autorrealizada nunca pensa que ela e a Suprema Personalidade de Deus são iguais sob todos os aspectos. Embora ela e a Suprema Personalidade de Deus sejam qualitativamente iguais, a entidade viva tende a esquecer sua identidade espiritual, ao passo que a Suprema Personalidade de Deus jamais esquece. Essa é a diferença entre lipta e alipta. A Suprema Personalidade de Deus é eternamente alipta, não contaminada pela energia externa. A alma condicionada, entretanto, estando em contato com a natureza material, esquece sua verdadeira identidade; portanto, quando ela se vê no estado condicionado, identifica-se com o corpo. Para a Suprema Personalidade de Deus, contudo, não há diferença entre o corpo e a alma. Ele é completamente alma; Ele não tem corpo material. Embora a Superalma, Paramātmā, e a alma individual estejam ambas dentro do corpo, a Superalma é desprovida de designações, ao passo que a alma condicionada é designada por seu tipo de corpo em particular. A Superalma chama-Se antaryāmī, e é expansiva. A Bhagavad-gītā (13.3) confirma isso. Kṣetra-jñaṁ cāpi māṁ viddhi sarva-kṣetreṣu bhārata: “Ó descendente de Bharata, deves entender que Eu sou também o conhecedor em todos os corpos.”

A Superalma está presente nos corpos de todos, ao passo que a alma individual está condicionada em uma espécie de corpo em particular. A alma individual não pode entender o que está ocorrendo em outro corpo, mas a Superalma sabe muito bem o que está acontecendo em todos os corpos. Em outras palavras, a Superalma está sempre presente em Sua plena posição espiritual, enquanto a alma individual tem a tendência de se esquecer. Tampouco a alma individual está presente em toda parte. De um modo geral, em seu estado condicionado, a alma individual não pode entender sua relação com a Superalma, mas, às vezes, livrando-se de toda a existência condicionada, ela não pode perceber a verdadeira diferença entre a Superalma e ela própria. Quando a Superalma diz à alma condicionada: “Tu e Eu somos a mesma coisa”, isso é para lembrar à alma condicionada que sua identidade espiritual é qualitativamente igual à do Senhor. No terceiro canto do Śrīmad-Bhāgavatam (3.28.40), afirma-se:

yatholmukād visphuliṅgād
dhūmād vāpi sva-sambhavāt
apy ātmatvenābhimatād
yathāgniḥ pṛthag ulmukāt

O fogo possui diferentes aspectos. Existe a chama, as centelhas e a fumaça. Muito embora sejam unos em qualidade, há uma diferença entre o fogo, a chama, a centelha e a fumaça. A entidade viva torna-se condicionada, mas a Suprema Personalidade de Deus é diferente porque não Se torna condicionada em momento algum. Os Vedas afirmam que ātmā tathā pṛthag draṣṭā bhagavān brahma-saṁjñitaḥ: ātmā é a alma individual, bem como a Suprema Personalidade de Deus, que é o observador de tudo. Embora ambos sejam espírito, sempre há uma diferença. No smṛti, também se diz que yathāgneḥ kṣudrā visphuliṅgā vyuccaranti: Assim como as centelhas se manifestam em uma grande fogueira, as pequenas almas individuais estão presentes na grande chama espiritual. Na Bhagavad-gītā (9.4), o Senhor Kṛṣṇa diz que mat-sthāni sarva-bhūtāni na cāhaṁ teṣv avasthitaḥ: “Todos os seres estão em Mim, mas Eu não estou neles.” Embora todos os seres vivos repousem nEle, como pequenas centelhas ígneas repousam em uma grande chama, a situação de ambos é diferente. De modo parecido, o Viṣṇu Purāa diz:

eka-deśa-sthitasyāgner
jyotsnā vistāriṇī yathā
parasya brahmaṇaḥ śaktis
tathedam akhilaṁ jagat

“O fogo se encontra em um lugar, mas projeta calor e luz. Analogamente, a Suprema Personalidade de Deus distribui Suas energias de diferentes maneiras.” A entidade viva é apenas uma dessas energias (a energia marginal). A energia e o energético são unos em um sentido, mas estão situados de forma diferente como energia e energético. De modo semelhante, a forma sac-cid-ānanda confirmada na Brahma-saṁhitā (īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ) é diferente da forma da entidade viva em seus estados condicionado e liberado. Somente os ateístas consideram a entidade viva e a Suprema Personalidade de Deus iguais sob todos os aspectos. Portanto, Caitanya Mahāprabhu diz que māyāvādi-bhāṣya śunile haya sarva-nāśa: “Se alguém segue as instruções dos filósofos māyāvādīs e acredita que a Suprema Personalidade de Deus e a alma individual são iguais, sua compreensão da verdadeira filosofia se perde para sempre.”

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