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CAPÍTULO VINTE E CINCO

As Glórias do Senhor Ananta

Neste capítulo, Śukadeva Gosvāmī descreve Ananta, a fonte do senhor Śiva. O Senhor Ananta, cujo corpo é inteiramente espiritual, reside na parte inferior do planeta Pātāla. Sempre no âmago do coração do senhor Śiva, Ele o ajuda a destruir o universo. Ananta instrui o senhor Śiva sobre como destruir o cosmo e, assim, às vezes é chamado de Tāmasī, ou “aquele que está no modo da escuridão”. Ele é a Deidade primordial da consciência material e, porque atrai todas as entidades vivas, às vezes é conhecido como Saṅkarṣaṇa. Todo o mundo material está situado sobre os capelos do Senhor Saṅkarṣaṇa. A partir de Sua testa, Ele transmite ao senhor Śiva o poder de destruir este mundo material. Porque o Senhor Saṅkarṣaṇa é uma expansão da Suprema Personalidade de Deus, muitos devotos oferecem-Lhe orações, e, no sistema planetário de Pātāla, todos os suras, asuras, Gandharvas, Vidyādharas e sábios eruditos oferecem-Lhe suas respeitosas reverências. O Senhor fala com eles com uma voz agradável. Sua constituição corpórea é inteiramente espiritual e belíssima. Todo aquele que ouvir um mestre espiritual autêntico falar a respeito de Ananta se livra de todas as concepções da vida materialista. Toda a energia material funciona de acordo com os planos de Anantadeva. Portanto, devemos considerá-lO como a causa fundamental da criação material. Sua força é ilimitada, e pessoa alguma, mesmo que possua bocas incontáveis, consegue descrevê-lO por completo. Logo, Ele é chamado de Ananta (ilimitado). Sendo muito misericordioso com todas as entidades vivas, Ele manifestou Seu corpo espiritual. Śukadeva Gosvāmī descreve a Mahārāja Parīkṣit as glórias de Anantadeva dessa maneira.

VERSO 1: Śrī Śukadeva Gosvāmī disse a Mahārāja Parīkṣit: Meu querido rei, a aproximadamente 384.000 quilômetros abaixo do planeta Pātāla vive outra encarnação da Suprema Personalidade de Deus. Ele é a expansão do Senhor Viṣṇu conhecida como Senhor Ananta ou Senhor Saṅkarṣaṇa. Ele está sempre na posição transcendental, mas, como é adorado pelo senhor Śiva, a deidade de tamo-guṇa, ou escuridão, às vezes é chamado de Tāmasī. O Senhor Ananta é a Deidade que preside o modo material da ignorância, bem como o falso ego de todas as almas condicionadas. Quando um ser vivo condicionado pensa: “Eu sou o desfrutador, e este mundo se destina ao meu desfrute”, essa concepção de vida lhe é imposta por Saṅkarṣaṇa. Assim, a alma condicionada mundana se julga o Senhor Supremo.

VERSO 2: Śukadeva Gosvāmī continuou: Este grande universo, situado em um dos milhares de capelos do Senhor Anantadeva, parece uma semente de mostarda branca. Comparado ao capelo do Senhor Ananta, ele é infinitesimal.

VERSO 3: No momento da devastação, quando deseja destruir toda a criação, o Senhor Anantadeva fica um pouco irado. É então que, do meio de Suas duas sobrancelhas, aparece o Rudra de três olhos, portando um tridente. Esse Rudra, que é conhecido como Saṅkarṣaṇa, é a personificação dos onze Rudras, ou encarnações do senhor Śiva. Ele aparece com o propósito de devastar toda a criação.

VERSO 4: As unhas transparentes e róseas dos pés de lótus do Senhor são exatamente como pedras preciosas polidas até se assemelharem a um espelho. Ao oferecerem com muita devoção suas reverências ao Senhor Saṅkarṣaṇa, os devotos imaculados e os líderes das serpentes ficam muito alegres ao verem seus belos rostos refletidos nessas unhas. As maçãs de seus rostos estão decoradas com brincos reluzentes, e a beleza de seus rostos é extremamente agradável de se ver.

VERSO 5: Os braços do Senhor Ananta são atrativamente longos, estão belamente decorados com braceletes e são inteiramente espirituais. Eles são brancos e, portanto, assemelham-se a colunas de prata. Quando as belas princesas das serpentes régias, esperando receber a bênção auspiciosa do Senhor, untam-Lhe os braços com polpa de aguru, polpa de sândalo e kuṅkuma, o contato de Seus membros desperta-lhes os desejos luxuriosos. Compreendendo suas mentes, o Senhor, esboçando um sorriso misericordioso, olha para as princesas, e elas ficam acanhadas, pois entendem que Ele conhece os seus desejos. Então, elas dão um belo sorriso e olham para o rosto de lótus do Senhor, rosto este embelezado por olhos avermelhados que se mexem um pouco devido à embriaguez e se delicia pelo amor aos Seus devotos.

VERSO 6: O Senhor Saṅkarṣaṇa é o oceano de ilimitadas qualidades espirituais, e por isso é conhecido como Anantadeva. Ele não é diferente da Suprema Personalidade de Deus. Para o bem-estar de todas as entidades vivas deste mundo material, Ele reside em Sua morada, contendo Sua ira e impaciência.

VERSO 7: Śukadeva Gosvāmī prosseguiu: Os semideuses, os demônios, os Uragas [semideuses com a forma de serpentes], os Siddhas, os Gandharvas, os Vidyādharas e muitos sábios altamente situados oferecem continuamente orações ao Senhor. Estando inebriado, o Senhor parece confuso, e Seus olhos, assemelhando-se a flores em pleno desabrochar, movem-se de um lado a outro. Com as doces vibrações que emanam de Sua boca, Ele satisfaz Seus associados pessoais, os líderes dos semideuses. Vestido com roupas azuis e usando apenas um brinco, Ele carrega sobre o ombro um arado, empunhado por Suas mãos formosas e graciosas. Parecendo tão branco como o celestial rei Indra, Ele usa um cinto de ouro na cintura e, em volta do pescoço, traz uma guirlanda vaijayantī de botões de tulasī sempre viçosos. Abelhas embriagadas com a fragrância de mel das flores de tulasī zumbem muito docemente em volta da guirlanda, tornando-a, dessa maneira, cada vez mais bela. Assim, o Senhor desfruta de Seus passatempos magnânimos.

VERSO 8: Se as pessoas que têm muita seriedade em querer libertar-se da vida material ouvem as glórias de Anantadeva serem recitadas por um mestre espiritual que compõe a corrente de sucessão discipular, e se elas sempre meditam em Saṅkarṣaṇa, o Senhor entra no âmago de seus corações, aniquila toda a contaminação e sujeira dos modos da natureza material, e despedaça o nó cego existente no coração, que desde tempos imemoriais foi bem apertado pelo desejo de dominar a natureza material através de atividades fruitivas. Nārada Muni, o filho do senhor Brahmā, sempre glorifica Anantadeva na assembleia de seu pai, onde canta versos bem-aventurados de sua própria autoria, e se faz acompanhar de seu instrumento de corda [ou de um cantor celestial] conhecido como Tumburu.

VERSO 9: Através de Seu olhar, a Suprema Personalidade de Deus capacita os modos da natureza material a agirem como causas da criação, manutenção e destruição universais. A Alma Suprema é ilimitada e sem começo, e, embora seja um, manifesta-Se em muitas formas. Como a sociedade humana pode compreender os desígnios do Supremo?

VERSO 10: Esta manifestação da matéria sutil e grosseira existe dentro da Suprema Personalidade de Deus. Por misericórdia imotivada para com Seus devotos, Ele apresenta várias formas, todas transcendentais. O Senhor Supremo é muito liberal, e detém todo o poder místico. Para conquistar a mente de Seus devotos e dar prazer a seus corações, Ele aparece em diversas encarnações e manifesta diversos passatempos.

VERSO 11: Mesmo que esteja aflita ou seja degradada, qualquer pessoa que cante o santo nome do Senhor, tendo-o recebido de um mestre espiritual autêntico, purifica-se de imediato. Mesmo que, só por gracejo ou por acaso, ela cante o nome do Senhor, ela própria ou alguém que a ouça livram-se de todos os pecados. Portanto, como alguém que busca desvencilhar-se das garras materiais poderia deixar de cantar o nome do Senhor Śeṣa? Em quem mais deveríamos nos refugiar?

VERSO 12: Porque o Senhor é ilimitado, ninguém pode calcular Seu poder. Todo este universo, repleto de muitas grandes montanhas, rios, oceanos, árvores e entidades vivas, exatamente como um átomo, repousa em um de Seus muitos milhares de capelos. Será que existe alguém, mesmo possuindo milhares de línguas, capaz de descrever Suas glórias?

VERSO 13: Não há limite para as grandes e gloriosas qualidades do poderoso Senhor Anantadeva. Na verdade, Suas proezas são ilimitadas. Embora autossuficiente, Ele é o suporte de tudo. Ele reside abaixo dos sistemas planetários inferiores e facilmente sustenta todo o universo.

VERSO 14: Meu querido rei, tal como ouvi de meu mestre espiritual, acabo de descrever-te na íntegra a criação deste mundo material, de acordo com as atividades fruitivas e desejos das almas condicionadas. Essas almas condicionadas, que estão cheias de desejos materiais, alcançam várias situações nos diferentes sistemas planetários e, dessa maneira, vivem dentro desta criação material.

VERSO 15: Meu querido rei, acabo, então, de descrever como, de modo geral, as pessoas agem de acordo com seus diferentes desejos, e, como resultado, obtêm variadas espécies de corpos nos planetas superiores ou inferiores. Indagaste-me e expliquei tudo o que ouvi das autoridades. O que me resta dizer?

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