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VERSOS 91-92

atra sargo visargaś ca
sthānaṁ poṣaṇam ūtayaḥ
manvantareśānukathā
nirodho muktir āśrayaḥ

daśamasya viśuddhy-arthaṁ
navānām iha lakṣaṇam
varṇayanti mahātmānaḥ
śrutenārthena cāñjasā

atra — no Śrīmad-Bhāgavatam; sargaḥ — a criação dos ingredientes do universo; visargaḥ — as criações de Brahmā; ca — e; sthānam — a manutenção da criação; poṣaṇam — o favorecimento dos devotos do Senhor; ūtayaḥ — ímpetos para atividade; manu-antara — deveres prescritos dados pelos Manus; īśa-anukathāḥ — uma descrição das encarnações do Senhor; nirodhaḥ — o encerramento da criação; muktiḥ — liberação; āśrayaḥ — o refúgio último, a Suprema Personalidade de Deus; daśamasya — do décimo (o āśraya); viśuddhi-artham — para o propósito do conhecimento perfeito; navānām — dos nove; iha — aqui; lakṣaṇam — a natureza; varṇayanti — descrevem; mahātmānaḥ — as grandes almas; śrutena — por meio de orações; arthena — por explicações; ca — e; añjasā — diretas.

Aqui [no Śrīmad-Bhāgavatam] descrevem-se dez assuntos: (1) a criação dos ingredientes do cosmo, (2) as criações de Brahmā, (3) a manutenção da criação, (4) o favor especial dado aos fiéis, (5) ímpetos para a atividade, (6) os deveres prescritos para homens obedientes à lei, (7) uma descrição das encarnações do Senhor, (8) o encerramento da criação, (9) o libertar-se da existência material grosseira e sutil, e (10) o refúgio derradeiro, a Suprema Personalidade de Deus. O décimo item é o abrigo de todos os outros. Para distinguir este refúgio último dos outros nove assuntos, os mahājanas descrevem estes nove, direta ou indiretamente, por meio de orações ou explicações diretas.”

SIGNIFICADO—Estes versos do Śrīmad-Bhāgavatam (2.10.1-2) enumeram os dez assuntos tratados no texto do Bhāgavatam. Desses assuntos, o décimo é a substância, e os outros nove são categorias derivadas da substância. Esses dez assuntos vão enumerados a seguir.

(1) Sarga: a primeira criação, feita por Viṣṇu, a produção dos cinco elementos materiais grosseiros, dos cinco objetos de percepção sensorial, dos dez sentidos, da mente, da inteligência, do falso ego e da totalidade da energia material ou forma universal.

(2) Visarga: a criação secundária, ou o trabalho de Brahmā ao produzir os corpos móveis e imóveis no universo (brahmāṇḍa).

(3) Sthāna: a manutenção do universo pela Personalidade de Deus, Viṣṇu. A função de Viṣṇu é mais importante e Sua glória, superior à de Brahmā e à do senhor Śiva, pois, embora Brahmā seja o criador e o senhor Śiva seja o destruidor, Viṣṇu é o mantenedor.

(4) Poṣaṇa: o cuidado e proteção especiais do Senhor a Seus devotos. Assim como um rei mantém seu reino e súditos, mas dá atenção especial aos membros de sua família, analogamente, a Personalidade de Deus oferece cuidados especiais a Seus devotos, que são almas inteiramente rendidas a Ele.

(5) Ūti: o ímpeto para a criação ou o poder iniciativo que é a causa de todas as invenções, segundo as necessidades de tempo, espaço e objetos.

(6) Manvantara: os princípios reguladores para seres vivos que desejam alcançar a perfeição na vida humana. As leis de Manu, conforme são descritas na Manu-saṁhitā, estabelecem a diretriz para tal perfeição.

(7) Īśānukathā: informação das escrituras a respeito da Personalidade de Deus, Suas encarnações na Terra e as atividades de Seus devotos. Escrituras que lidam com esses assuntos são essenciais para a vida humana progressiva.

(8) Nirodha: o recolhimento de todas as energias utilizadas na criação. Tais potências são emanações da Personalidade de Deus que está deitada eternamente no Oceano Kāraṇa. As criações cósmicas, manifestas juntamente com Sua respiração, são novamente dissolvidas no devido curso do tempo.

(9) Mukti: liberação das almas condicionadas encarceradas pelas coberturas grosseiras e sutis do corpo e da mente. Ao livrar-se de toda a afeição material, a alma, abandonando os corpos materiais grosseiro e sutil, pode atingir o céu espiritual em seu corpo espiritual original e ocupar-se no transcendental serviço amoroso ao Senhor em Vaikuṇṭhaloka ou Kṛṣṇaloka. Ao situar-se em sua posição constitucional original de existência, a alma é tida como liberada. É possível dedicar-se ao transcendental serviço amoroso ao Senhor e tornar-se jīvanmukta, alma liberada, mesmo enquanto no corpo material.

(10) Āśraya: a Transcendência, o summum bonum, de quem tudo emana, em quem tudo se apoia e em quem tudo imerge após a aniquilação. Ele é a fonte e o apoio de tudo. O āśraya é também chamado o Supremo Brahman, como no Vedānta-sūtra (athāto brahma-jijñāsā, janmādy asya yataḥ). O Śrīmad-Bhāgavatam descreve especialmente esse Supremo Brahman como o āśraya. Śrī Kṛṣṇa é esse āśraya, e por isso a maior necessidade da vida é estudar a ciência de Kṛṣṇa.

O Śrīmad-Bhāgavatam aceita Śrī Kṛṣṇa como o abrigo de todas as manifestações porque o Senhor Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, é a fonte última de tudo, a meta suprema de tudo.

Dois princípios diferentes devem ser levados em consideração aqui – a saber, āśraya, o objeto que fornece abrigo, e āśrita, os dependentes que precisam do abrigo. Os āśritas existem sob o princípio original, o āśraya. As nove primeiras categorias, descritas nos primeiros nove cantos do Śrīmad-Bhāgavatam, desde a criação até a liberação, incluindo os puruṣa-avatāras, as encarnações, a energia marginal ou entidades vivas e a energia externa ou o mundo material, são todas āśrita. No entanto, as orações do Śrīmad-Bhāgavatam visam ao āśraya-tattva, a Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. As grandes almas hábeis em descrever o Śrīmad-Bhāgavatam esboçam com todo o zelo as outras nove categorias, às vezes através de narrações diretas e às vezes através de narrações indiretas, tais como histórias. O propósito verdadeiro ao fazer isso é dar a conhecer perfeitamente a Transcendência Absoluta, Śrī Kṛṣṇa, pois toda a criação, tanto material quanto espiritual, descansa no corpo de Śrī Kṛṣṇa.

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