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Capítulo 9

Purificando a Mente no Processo de Autorrealização

Verso 15

cetaḥ khalv asya bandhāya
muktaye cātmano matam
guṇeṣu saktaṁ bandhāya
rataṁ vā puṁsi muktaye

A fase na qual a consciência da entidade viva é atraída pelos três modos da natureza material chama-se vida condicionada. Contudo, quando esta mesma consciência se apega à Suprema Personalidade de Deus, a pessoa se situa na consciência de liberação.

SIGNIFICADO—Aqui se faz uma distinção entre consciência de Kṛṣṇa e consciência de māyā. Guṇeṣu, ou consciência de māyā, envolve apego aos três modos da natureza material, sob os quais trabalha-se ora em bondade e conhecimento, ora em paixão, ora em ignorância. Essas diferentes atividades qualitativas, com o apego centralizado no gozo material, são a causa de nossa vida condicionada. Quando a mesma cetaḥ, ou consciência, transfere-se à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, ou seja, quando nos tornamos conscientes de Kṛṣṇa, entramos no caminho da liberação.

Verso 16

ahaṁ-mamābhimānotthaiḥ
kāma-lobhādibhir malaiḥ
vītaṁ yadā manaḥ śuddham
aduḥkham asukhaṁ samam

Quando alguém se livra inteiramente das impurezas da luxúria e da cobiça, produzidas pela falsa identificação do corpo como “eu” e das posses do corpo como “minhas”, sua mente se purifica. Nesse estado puro, ele transcende a fase das supostas felicidade e aflição materiais.

SIGNIFICADO—Kāma e lobha são os sintomas da existência material. Todos sempre desejam possuir algo. Este verso diz que desejo e cobiça são produtos de nossa falsa identificação com o corpo. Quando alguém se liberta de tal contaminação, sua mente e sua consciência também se libertam e alcançam seu estado original. A mente, a consciência e a entidade viva existem. Sempre que falamos de entidade viva, isso inclui a mente e a consciência. A diferença entre vida condicionada e vida liberada ocorre quando purificamos a mente e a consciência. Com a mente e a consciência purificadas, tornamo-nos transcendentais à felicidade e à aflição materiais.

A princípio, o Senhor Kapila disse que o yoga perfeito nos capacita a transcender a plataforma da aflição e felicidade materiais. E aqui se explica como se pode fazer isso: é preciso purificar a mente e a consciência. Pode-se fazer tal coisa mediante o sistema de bhakti-yoga. Como se explica no Nārada-pañcarātra, a mente e os sentidos devem ser purificados (tat-paratvena nirmalam). Devemos utilizar os sentidos no serviço devocional ao Senhor. Eis o processo. A mente precisa ter alguma ocupação. Não se pode esvaziar a mente. Naturalmente, há algumas tentativas disparatadas de esvaziar a mente, mas isso não é possível. O único processo que purificará a mente é o de ocupá-la em Kṛṣṇa. A mente precisa estar ocupada. Se absorvermos nossa mente em Kṛṣṇa, naturalmente a consciência ficará inteiramente purificada e não haverá possibilidade da infiltração de desejo e cobiça materiais.

Nossa mente é nossa amiga, e nossa mente é nossa inimiga. Se está limpa, ela é amiga, e se está suja, entramos em contato com as doenças materiais. Se nos mantivermos limpos, puros, não nos contaminaremos. De acordo com a civilização védica, deve-se tomar banho três vezes por diauma vez pela manhã, uma vez ao meio-dia e outra vez ao anoitecer. Aqueles que seguem à risca as regras e regulações bramânicas realizam esse processo. A limpeza é algo próximo da santidade. Vida condicionada significa que a mente está coberta por coisas sujas, e essa é nossa doença. Quando estamos nos modos inferiores de tamo-guṇa e rajo-guṇa, essas coisas sujas ficam muito patentes. Devemos nos elevar ao modo de sattva (bondade) através do processo de saṅkīrtana e śravaṇa. Devemos ouvir kṛṣṇa-kathā. Kṛṣṇa está dentro do coração de todos. A alma individual é parte integrante de Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa deseja que a alma individual se volte para Ele. Infelizmente, a alma condicionada está apegada ao desfrute material, e essa é a causa de seu cativeiro ao nascimento, morte, velhice e doença. Ela é tão tola que não leva em consideração que esses sofrimentos estão sempre a se repetir. Ela é como um asno que pertence a um lavador de roupas e carrega em seu dorso uma quantidade enorme de roupas pesadas. Por uns poucos feixes de capim, o asno tem de carregar cargas muito pesadas o dia inteiro, apesar de nem uma peça de roupa lhe pertencer. Assim são os karmīs. Eles podem se tornar multimilionários, mas são exatamente como asnos que trabalham duro dia e noite. A despeito de todo o dinheiro que possam ter, seus estômagos só comportam um pouco de comida. E não precisam de mais de dois metros quadrados de espaço para dormir. Apesar disso, esses grandes karmīs julgam-se muito importantes. Eles pensam: “Sem mim, todos os membros de minha nação perecerão. Deixe-me trabalhar dia e noite até a hora da morte.” Todos estão pensando: “Pertenço a esta família, a esta nação, a esta comunidade. Tenho este dever ou aquele dever.” Ninguém sabe que todas essas designações são falsas.

Śrī Caitanya Mahāprabhu, portanto, afirma que jīvera ‘svarūpa’ hayakṛṣṇera ‘nitya-dāsa’: nossa posição verdadeira é a de servos eternos de Kṛṣṇa. Erroneamente pensamos ser servos de uma família ou de uma nação, mas isso se deve à ignorância, tamo-guṇa. Entretanto, podemos alcançar a plataforma de sattva-guṇa por seguirmos as instruções dadas na Bhagavad-gītā. Ouvir kṛṣṇa-kathā, assuntos relacionados a Kṛṣṇa, limpa todas as coisas sujas da mente. E também, se cantamos e dançamos, essas sujeiras serão eliminadas. A mente é a causa do cativeiro, e a mente é a causa da liberação. Quando está suja, ela acarreta o cativeiro. Na vida condicionada, nascemos, permanecemos algum tempo e desfrutamos ou sofremos. Mas, na verdade, não há desfrute. Só existe sofrimento. Ao morrermos, temos de abandonar o corpo e aceitar outro corpo. Logo a seguir, entramos no ventre de outra mãe, permanecemos lá durante nove meses e, em seguida, saímos. Então, inicia-se um novo capítulo da vida. Assim é a vida condicionada, e ela se repete vezes, vezes e mais vezes. Dessa maneira, nós nos submetemos às tribulações do nascimento, da velhice, da doença e da morte. Os cães e gatos não podem compreender este processo, mas nós, na forma humana de vida, podemos compreendê-lo através das escrituras védicas. Se não tiramos proveito dessas escrituras, toda a nossa educação não vale nada.

As pessoas de fato desperdiçam seu tempo falando sobre política, sociologia, antropologia e assim por diante. Elas leem muitos livros que não glorificam o Supremo Senhor Hari e, dessa maneira, desperdiçam seu tempo. Este movimento da consciência de Kṛṣṇa está dando a todos a oportunidade de tornarem-se piedosos. Puṇya-śravaṇa-kīrtanaḥ. Não é necessário dar dinheiro ou banhar-se no Ganges. Existem muitas atividades piedosas e muitos processos recomendados nos śāstras para tornar-se piedoso. Em Kali-yuga, entretanto, os homens perderam todo o seu vigor. São tão pecaminosos que fica afastada qualquer hipótese de tornarem-se piedosos através de todos esses métodos prescritos. O único meio é ouvir sobre Kṛṣṇa e cantar Seus nomes. Kṛṣṇa nos deu ouvidos para ouvir e uma língua para falar. Podemos ouvir uma alma autorrealizada e, dessa maneira, aperfeiçoar nossas vidas. Dessa maneira, recebemos uma oportunidade para nos purificarmos. A menos que nos purifiquemos, não podemos nos tornar devotos. A vida humana destina-se à purificação. Nesta era, infelizmente, as pessoas não estão interessadas em Kṛṣṇa e, por isso, sofrem na existência material vida após vida. Em determinada vida, podem ser muito opulentas. Elas não se importam com a próxima vida. Elas pensam: “Deixe-me comer, beber e me divertir.” Isso está acontecendo no mundo todo, mas os śāstras dizem que está equivocado quem age assim. Nūnaṁ pramattaḥ kurute vikarmaḥ (Śrīmad-Bhāgavatam 5.5.4): todos enlouqueceram devido ao gozo dos sentidos e, assim, ocupam-se em toda espécie de atividades proibidas. Karma significa trabalho regulado, e vikarma significa exatamente o opostoatividades ilegais, proibidas. A palavra akarma significa que a pessoa não é afetada pelos resultados do trabalho. Como se declara na Bhagavad-gītā (3.9):

yajñārthāt karmaṇo ’nyatra
loko ’yaṁ karma-bandhanaḥ
tad-arthaṁ karma kaunteya
mukta-saṅgaḥ samācara

“Deve-se realizar o trabalho como um sacrifício a Viṣṇu; caso contrário, o trabalho produz cativeiro neste mundo material. Portanto, ó filho de Kuntī, executa teus deveres prescritos para a satisfação dEle e, desta forma, sempre permanecerás livre do cativeiro.”

Quando estão nos modos da paixão ou da ignorância, as pessoas realizam vikarma. Elas não se importam com suas vidas futuras e estão habituadas a comer toda e qualquer coisa, exatamente como porcos. Fazem pouco caso dos preceitos escriturais e são totalmente irresponsáveis. São tais quais meninos de rua que não têm educação e não se importam com nada. Tais moleques fazem o que bem entendem, pois seus pais não se importam com eles. Semelhante vida em ignorância, tamo-guṇa, é uma vida negligente. As pessoas simplesmente agem de forma ilegal, sem considerar o resultado de suas ações. Eu vi em Calcutá como as pessoas se divertiam em cortar a garganta das galinhas e riam quando estas ficavam saltando e batendo as asas. Às vezes, nos países ocidentais, os estudantes são levados a matadouros para ver como as vacas são mortas. Nesta era, os homens sentem prazer em cometer todo tipo de pecado. Eles não têm cérebro para ver que este corpo é temporário e repleto de sofrimento. Estão completamente no modo da escuridão, assim como os animais que eles matam. Pode haver muitos animais em um pasto e, se alguém separa algum dos animais e corta sua garganta, os outros animais simplesmente irão parar, olhar e continuar pastando. Eles não compreendem que podem ser os próximos. Os homens de Kali-yuga estão na mesma situação, mas o movimento da consciência de Kṛṣṇa está tentando dar a esses patifes um pouco de juízo. Estamos dizendo: “Não permaneçam como animais. Tornem-se seres humanos.” Nas palavras de Caitanya Mahāprabhu:

kṛṣṇa bhuli’ sei jīva anādi-bahirmukha
ataeva māyā tāre deya saṁsāra-duḥkha

“Esquecendo-se de Kṛṣṇa, a entidade viva tem, desde tempos imemoriais, deixado-se atrair pelo aspecto externo. Portanto, a energia ilusória [māyā] causa-lhe toda espécie de sofrimentos ao longo de sua existência material.” (Caitanya-caritāmṛta, Madhya 20.117) Quando alguém esquece sua relação com Kṛṣṇa, age de forma muito tola, e māyā lhe traz um sofrimento após o outro. Também está dito:

māyā-mugdha jīvera nāhi svataḥ kṛṣṇa jñāna
jīvere kṛpāya kailā kṛṣṇa veda-purāṇa

“Não é por intermédio de seu próprio esforço que a alma condicionada poderá reviver sua consciência de Kṛṣṇa. Mas, por misericórdia imotivada, o Senhor Kṛṣṇa compilou a literatura védica e seus suplementos, os Purāṇas.” (Caitanya-caritāmṛta, Madhya 20.122)

Devemos utilizar as escrituras védicaso Vedānta, as Upaniṣads, o Rāmāyaṇa, o Mahābhārata e muitas outras – se desejamos nos livrar da contaminação de tamo-guṇa e rajo-guṇa. O mundo todo gira devido a kāma e lobha. Kāma significa “desejo luxurioso”, e lobha, “cobiça”. O homem não consegue obter suficiente prazer sexual ou dinheiro, e, por causa disso, seu coração fica repleto de contaminações, que devem ser limpas através do processo de ouvir, repetir e cantar. A vida humana se destina a limpar esses anarthas, coisas indesejáveis. Mas existe alguma universidade ou faculdade que ensine essa ciência da purificação? A única instituição é esta sociedade da consciência de Kṛṣṇa. Kṛṣṇa está dentro do coração, e as contaminações também estão lá, mas Kṛṣṇa nos ajudará a limpá-las. Naṣṭa-prāyeṣv abhadreṣu nityaṁ bhāgavata-sevayā. (Śrīmad-Bhāgavatam 1.2.18) Temos de ouvir regularmente o Śrīmad-Bhāgavatam e cantar Hare Kṛṣṇa; estes são os dois processos recomendados por Caitanya Mahāprabhu. Haridāsa Ṭhākura cantava trezentos mil santos nomes por dia, mas nós fixamos o número de dezesseis voltas de japa. Contudo, somos tão desafortunados e caídos que nem isso conseguimos fazer. Não devemos desperdiçar nosso tempo lendo e falando bobagens; devemos, antes, nos ocupar no estudo do Śrīmad-Bhāgavatam. O tempo é muito valioso e não devemos desperdiçá-lo. Cāṇakya Paṇḍita disse: āyuṣaḥ kṣaṇa eko ’pi na labhyaḥ svarṇa-koṭibhiḥ. Talvez vivamos por cem anos, mas nem um momento desses cem anos pode ser recuperado, mesmo que estejamos preparados para pagar milhões de dólares. Não podemos aumentar nem um momento, tampouco podemos obter um momento de volta. Se tempo é dinheiro, devemos então considerar quanto dinheiro já perdemos. O tempo, todavia, é ainda mais precioso, porque ninguém pode recuperá-lo. Portanto, não se deve perder nem um só instante. A vida humana deve ser utilizada apenas para cantar e ler as escrituras védicas. A Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna está publicando muitos livros para que todos possam utilizar bem seu tempo e, dessa maneira, tornar suas vidas bem-sucedidas. Devemos não só ler o Śrīmad-Bhāgavatam, mas também servir a pessoa bhāgavata, cuja vida não é diferente do Śrīmad-Bhāgavatam. Nityaṁ bhāgavata-sevayā. Através desse processo, podemos alcançar o nível de bhagavad-bhakti, mas primeiro precisamos nos livrar de todos estes anarthas, ou coisas indesejáveis. Agora desperdiçamos nosso tempo pensando: “Este é meu país. Esta é minha nação. Este é meu corpo. Esta é minha família”, e assim por diante. Nityaṁ bhāgavata-sevayā. Podemos exterminar todas essas concepções falsas quando chegamos à plataforma de sattva-guṇa. Nós, então, não seremos perturbados por tamo-guṇa ou rajo-guṇa, nem por kāma ou lobha (luxúria e cobiça). Essa é a plataforma vasudeva. Oṁ namo bhagavate vāsudevāya.

O Senhor Kapiladeva, no próximo verso, aponta os resultados que decorrem da conclusão exitosa desse processo purificatório.

Verso 17

tadā puruṣa ātmānaṁ
kevalaṁ prakṛteḥ param
nirantaraṁ svayaṁ-jyotir
aṇimānam akhaṇḍitam

Nesse momento, a alma pode ver que é transcendental à existência material e sempre autorrefulgente, nunca fragmentada, embora muito diminuta em tamanho.

SIGNIFICADO—No estado de consciência pura, ou consciência de Kṛṣṇa, podemos ver-nos como partículas diminutas não diferentes do Senhor Supremo. Como se afirma na Bhagavad-gītā, a jīva, ou a alma individual, é eternamente parte integrante do Senhor Supremo. Assim como os raios do Sol são partículas diminutas da brilhante constituição do Sol, da mesma forma, a entidade viva é uma partícula diminuta do Espírito Supremo. A alma individual e o Senhor Supremo não são separados como na diferenciação material. A alma individual é uma partícula desde o início. Não se deve pensar que, porque a alma individual é uma partícula, ela se fragmenta do espírito total. A filosofia māyāvāda enuncia que o espírito total existe, mas uma parte dele, que se chama jīva, cai na armadilha da ilusão. Esta filosofia, contudo, é inaceitável porque não se pode dividir o espírito como um fragmento de matéria. Esta parte, a jīva, é eternamente uma parte. Se o Espírito Supremo existe, Sua parte integrante também existe. Se o Sol existe, as moléculas dos raios do Sol também existem.

Calcula-se na literatura védica que a partícula jīva é uma décima milésima parte do tamanho da porção superior de um fio de cabelo. Portanto, ela é infinitesimal. O Espírito Supremo é infinito, mas a entidade viva, ou a alma individual, é infinitesimal, embora, em qualidade, não seja diferente do Espírito Supremo.

Observa-se neste verso duas palavras em particular. Uma é nirantaram, que significa “não-diferente”, ou “da mesma qualidade”. A expressão aqui usada para a alma individual é aṇimānam. Aṇimānam significa “infinitesimal”. O Espírito Supremo é onipenetrante, mas o espírito diminuto é a alma individual. Akhaṇḍitam não quer dizer exatamente “fragmentado”, mas sim “constitucionalmente sempre infinitesimal”. Ninguém pode separar do Sol as partes moleculares do brilho solar, mas, ao mesmo tempo, a parte molecular do brilho solar não é tão expansível quanto o próprio Sol. Analogamente, a entidade viva, por sua posição constitucional, é qualitativamente a mesma que o Espírito Supremo, mas infinitesimal.

Autorrealização significa perceber a própria identidade como uma jīva infinitesimal. No momento presente, vemos o corpo, mas essa não é nossa identidade correta. Não conseguimos ver a verdadeira pessoa que ocupa o corpo. A primeira lição que recebemos da Bhagavad-gītā (2.13) nos ensina que o corpo e seu proprietário são diferentes. Ao compreendermos que não somos o corpo, damos início ao processo de autorrealização, e esse estado se chama brahma-bhūta. Ahaṁ brahmāsmi. Não sou este corpo material, mas sim uma alma espiritual. E quais são as características da jīva, da alma? Em primeiro lugar, ela é aṇimānam, muito pequena, infinitesimal. Nós também somos jyoti, refulgentes, como Deus, mas Deus é brahmajyoti, onipenetrante e infinito. Segundo a teoria māyāvāda, somos iguais ao brahmajyoti. Os māyāvādīs dão o exemplo do pote e o céu. Fora do pote, existe céu, e também existe céu dentro do pote. A separação deve-se apenas ao barro que delimita o pote. Quando o pote se quebra, o interior e o exterior tornam-se unos. Entretanto, esse exemplo não se aplica muito bem à alma, como ela é descrita na Bhagavad-gītā (2.24):

acchedyo ’yam adāhyo ’yam
akledyo ’śoṣya eva ca
nityaḥ sarva-gataḥ sthāṇur
acalo ’yaṁ sanātanaḥ

“Essa alma individual é inquebrável e indissolúvel, e não pode nem ser queimada nem seca. Ela é permanente, está presente em toda parte, é imutável, imóvel e eternamente a mesma.” A alma não pode ser cortada em pedaços, nem segmentada. Isso quer dizer que a alma é perpetuamente diminuta. Somos eternas partes integrantes de Śrī Kṛṣṇa. Como o próprio Śrī Kṛṣṇa declara na Bhagavad-gītā (15.7):

mamaivāṁśo jīva-loke
jīva-bhūtaḥ sanātanaḥ

“As entidades vivas neste mundo condicionado são Minhas eternas partes fragmentárias.” A palavra sanātana significa “eterno”, e aṁśa significa “partículas”. Deus, Kṛṣṇa, é muito grande. Ninguém é igual ou maior do que Ele. Declara-se que Deus é grande, mas, na verdade, não compreendemos quão grande é Deus. Ele é tão grande que milhões de universos estão emanando dos poros de Seu corpo.

yasyaika-niśvasita-kālam athāvalambya
jīvanti loma-vila-jā jagad-aṇḍa-nāthāḥ
viṣṇur mahān sa iha yasya kalā-viśeṣo
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi

“Os Brahmās e outros senhores dos mundos materiais surgem dos poros de Mahā-Viṣṇu e permanecem vivos durante o tempo de uma de Suas exalações. Adoro o Senhor primordial, Govinda, pois Mahā-Viṣṇu é uma porção de Sua porção plenária.” (Brahma-saṁhitā 5.48)

Milhões de universos emanam da respiração de Mahā-Viṣṇu. No décimo capítulo da Bhagavad-gītā, Kṛṣṇa indica a Arjuna um pouco de Sua glória infinita e conclui Suas descrições com a seguinte declaração (Bhagavad-gītā 10.42):

atha vā bahunaitena
kiṁ jñātena tavārjuna
viṣṭabhyāham idaṁ kṛtsnam
ekāṁśena sthito jagat

“Mas qual a necessidade, Arjuna, de todo esse conhecimento minucioso? Com um simples fragmento de Mim mesmo, Eu penetro e sustento todo este universo.”

Este universo (jagat) está situado na potência de uma parte dos poderes ióguicos de Kṛṣṇa. Dessa maneira, devemos compreender a grandeza de Deus e nossa própria identidade como partículas diminutas. Afirma-se nos Purāṇas que a alma individual mede uma décima milésima parte da ponta de um fio de cabelo. Se, de uma forma ou outra, pudéssemos dividir a ponta de um cabelo em dez mil partes, poderíamos começar a compreender como a alma é invisível. Autorrealização significa conhecer nossa identidade como pequenas partículas. A minúscula partícula que é a alma espiritual está dentro de cada um de nós, mas não é possível vê-la com olhos materiais. Não há instrumento neste universo através do qual alguém possa realmente ver a alma. Devido à nossa incapacidade de perceber a alma, dizemos que ela é nirākāra, sem forma. Não podemos nem mesmo calcular sua dimensão (ākāra). Muito embora não possamos calcular seu tamanho, ela existe. A entidade viva tem forma completa. Existem micróbios e pequenos insetos que mal podemos ver, mas eles possuem uma anatomia que consiste em várias partes funcionais. Dentro de um pequeno inseto, também existe uma alma espiritual, e essa alma espiritual também existe dentro do elefante e de outros animais grandes.

Quando de fato compreendermos nossa identidade como Brahman, nossa vida será bem-sucedida. No momento, nós nos identificamos com o corpo, mas, enquanto permanecemos assim, não somos melhores do que cães e gatos, embora possamos ter considerável quantidade de conhecimento científico. As almas condicionadas consideram o corpo como o eu, de modo que as jīvas se identificam como americanas, indianas, brāhmaṇas, kṣatriyas, homens, mulheres, elefantes e assim por diante. Pensando nesses termos corpóreos, as pessoas veem suas esposas e seus filhos como propriedade, e sua terra natal como adorável. Por conseguinte, estão dispostas a lutar e morrer por seu país. Agora todos estão trabalhando sob o encanto dessa ilusão, mas, para compreendermos nossa identidade espiritual, temos de encontrar o guru adequado.

Compreender nossa identidade significa compreender que somos eternas partes integrantes de Kṛṣṇa, que somos diminutos, infinitesimais e que possuímos uma relação eterna com Kṛṣṇa, assim como uma parte em relação ao todo. Jamais podemos ser tão grandes quanto Kṛṣṇa, embora sejamos iguais em qualidade. Ninguém é igual a Deus, e ninguém é maior do que Ele. Se alguém afirma ser Deus, ele tem de provar que ninguém é igual a ele e que ninguém é maior que ele. Se puder fazer isso, ele é Deus. Essa é uma definição muito simples. A Brahma-saṁhitā (5.1) também confirma essa declaração: īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ. A palavra īśvara significa “controlador”, e parama significa “supremo”. Nós, pequenas entidades vivas, somos controladores até certo ponto. Podemos controlar, às vezes, nossa família, esposa, filhos e assim por diante. Ou podemos controlar nosso escritório, fábrica, país ou o que seja. Existem controladores pequenos e controladores maiores. Se formos até Brahmā, veremos que ele está controlando o universo inteiro, mas ele não é o controlador supremo. Afirma-se nos śāstras que Brahmā, a entidade viva suprema dentro deste universo, também está meditando para aprender a como controlar. Tene brahma hṛdā ya ādi-kavaye (Śrīmad-Bhāgavatam 1.1.1).

Primeiro, Brahmā aprendeu a controlar o universo, após o que se qualificou como Brahmā. Mesmo tendo nascido Brahmā, teve que receber educação. Se ele foi a primeira entidade viva do universo, quem o educou? Kṛṣṇa. Śrī Kṛṣṇa diz na Bhagavad-gītā (10.2) que aham ādir hi devānām: “Eu sou a origem dos semideuses.”

Os semideuses originais são Brahmā, Viṣṇu e Śiva. O Senhor Kṛṣṇa é Viṣṇu, mas Ele é o instrutor de Brahmā e Śiva. Portanto, afirma-se que o Senhor Kṛṣṇa é a origem de todos os semideuses.

Não devemos afirmar tolamente que somos tão grandes quanto o Deus Supremo. Devemos compreender que somos como centelhas do fogo original. A centelha também é fogo, mas, caso se separe da chama original, ela se apaga. Ninguém deve pensar que é Deus só porque é igual a Ele em qualidade. Talvez alguém seja um īśvara, um controlador, mas ele não pode ser īśvaraḥ paramaḥ, o controlador supremo. Hoje em dia, virou moda alguém se intitular Nārāyaṇa, Deus. Os māyāvādīs dirigem-se uns aos outros como Nārāyaṇa, e assim todos supostamente se tornaram Nārāyaṇa. Dessa maneira, há uma superpopulação de Nārāyaṇas em toda parte. Mas como é possível que todos se tornem Nārāyaṇa? Nārāyaṇa é um, e os śāstras advertem:

yas tu nārāyaṇaṁ devaṁ
brahma-rudrādi-daivataiḥ
samatvenaiva vīkṣeta
sa pāṣaṇḍī bhaved dhruvam

“Quem quer que pense que o Senhor Viṣṇu e os semideuses estão no mesmo nível deve imediatamente ser considerado um impostor no que diz respeito à compreensão espiritual.” Se alguém compara Nārāyaṇa aos semideuses, ele simplesmente demonstra sua falta de inteligência. Também é moda falar em daridra-nārāyaṇa, Nārāyaṇa pobre, dizendo que o pobre na rua é Nārāyaṇa. Mas que disparate é esse? Nārāyaṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Até mesmo Śaṅkarācārya diz: nārāyaṇaḥ paro ’vyaktāt. Nārāyaṇa está além deste universo. Avyaktād aṇḍa-sambhavaḥ: o universo inteiro é um produto desse avyakta. Se não devemos comparar Nārāyaṇa a ninguém, o que se dizer, então, do pobre na rua (daridra). Tudo isso é tolice. Nārāyaṇa é Lakṣmīpati, o esposo e controlador da deusa da fortuna. Como, então, Ele pode ser daridra? Tudo isso se deve a uma compreensão equivocada. Portanto, os śāstras advertem que, se alguém pensa que os semideuses são iguais a Nārāyaṇa, ele é um pāṣaṇḍī, ateísta. Não devemos pensar que, pelo fato de nos liberarmos, alcançamos a posição de Nārāyaṇa. Através da austeridade severa e penitência, uma pessoa pode elevar-se à posição de Brahman, mas essa não é a posição de Para-brahman. Āruhya kṛcchreṇa paraṁ padaṁ tataḥ. (Śrīmad-Bhāgavatam 10.2.32) Embora se eleve à plataforma de Brahman, ela cai de novo na posição material caso negligencie a adoração dos pés de lótus de Kṛṣṇa. Talvez alguém se eleve à refulgência Brahman, mas, porque lá não existe abrigo, ele tem de retornar ao mundo material. Uma pessoa pode ir a Brahmaloka, o planeta mais elevado no céu material, mas sua posição ali é temporária. Entretanto, no paravyoma, o céu espiritual, existem muitos planetas espirituais, chamados de Vaikuṇṭha-lokas. Existem milhões desses planetas gigantescos, e, a menos que nos refugiemos em um deles, cairemos de novo no plano material.

Não é suficiente elevar-se à plataforma de Brahman. Brahman é sat (existência) e uma realização parcial da Verdade Absoluta. Estamos, na verdade, em busca de ānanda. Sac-cid-ānanda: cit significa “conhecimento”, e isso também é parcial. Devemos acrescentar ānanda (bem-aventurança) para obtermos realização completa. Se simplesmente voamos pelo céu, não podemos obter ānanda. Temos de aterrissar em um aeroporto mais cedo ou mais tarde. Se simplesmente atingimos a refulgência Brahman, não experimentamos ānanda. Experimentamos ānanda quando entramos nos planetas espirituais, onde Nārāyaṇa, Kṛṣṇa, está presente. Paras tasmāt tu bhāvo ’nyo ’vyakto ’vyaktāt sanātanaḥ (Bhagavad-gītā 8.20). Temos de entrar nos planetas eternos e nos associar com a Suprema Personalidade de Deus para sermos felizes. Se não alcançamos essa posição, retornamos ao mundo material. E como é possível conseguir isso? Basta tentarmos compreender Kṛṣṇa. Por que Ele vem? Qual é o Seu objetivo? Qual é a Sua forma?

O propósito deste movimento da consciência de Kṛṣṇa é ensinar às pessoas como compreender Kṛṣṇa. Se alguém é afortunado a ponto de compreendê-lO, sua vida é um sucesso. Enquanto temos desejos luxuriosos e cobiçosos, não podemos alcançar tal compreensão. O processo de bhakti-yoga é o processo de purificação através do qual podemos nos libertar de kāma e lobha, luxúria e cobiça, e das influências dos guṇas inferiores, tamo-guṇa e rajo-guṇa, ignorância e paixão. Logo que nos ocupamos em serviço devocional, nós nos livramos de imediato da influência dos guṇas. Porque não somos peritos em nos aproximar do Senhor Supremo, temos de seguir os princípios de bhakti-yoga enunciados pelos ācāryas. Quando um menino vai para a escola, ele tem de seguir as regras e regulações, mas, depois de algum tempo, ele se acostuma com elas e não precisa mais ser ensinado. Em outras palavras, ele aprende a ir à escola sozinho na hora certa, a sentar-se em seu lugar e a estudar corretamente. Analogamente, neste movimento da consciência de Kṛṣṇa, temos certas regras e regulações. Temos de levantar de madrugada para o maṅgala-ārati, cantar dezesseis voltas de Hare Kṛṣṇa por dia e executar todas as funções de bhakti-yoga. Dessa maneira, apegamo-nos a prestar serviço a Kṛṣṇa e tornamo-nos experientes nesta ciência. Ao atingirmos essa plataforma, logramos a autorrealização.

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